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"COM QUE ROUPA... EU VOU? PRO SAMBA QUE VOCÊ ME
CONVIDOU"
Moda e arte sempre caminharam juntas, mesmo que inconscientemente.
A cada mudança de pensamento, de comportamento e de linguagem artística,
o homem acompanhava com a sua maneira de vestir esta evolução.
É possível contar a história da humanidade de diversas maneiras, mas
sempre que nosso interesse for a arte, veremos a moda, ao seu lado, se
apropriando destas características artísticas para si, e então,
poderemos compreender, através da maneira do homem vestir, como ele se
comportou social, política e economicamente, pois a maneira de pensar
vai influir diretamente nas suas escolhas estéticas.
A Moda é uma arte que não veste telas nem muros, ela se expressa no
movimento dos corpos, de acordo com a ideologia, o desejo de cada um.
Como os belos quadros, ela apresentava a voz do seu criador.
"A moda é passageira , sua história, não".
Marco Sabino
Antes da Moda
O homem nasceu nu.
Não se sabe ao certo a partir de quando ele começou a se vestir, aliás,
a se cobrir com a pele dos animais. Terá sido por proteção? Por
misticismo? Isto nunca saberemos, mas, a partir dali, estava plantada a
semente da vaidade no ser humano e a sua vestimenta vai passar, durante
muitos séculos, a determinar a sua condição social.
E a arte já estava presente ali, pois o homem passa a se expressar
através de pinturas e desenhos nas cavernas. O conceito ainda não estava
formado, mas era um embrião.
Quando falamos em moda na pré-história a primeira imagem que nos vem
à mente são os Flintstones, que nos leva a fantasiar que naquela época
tudo era "fashion", divertido. Mas das peles costuradas com tripas de
animais por agulhas de marfim até a invenção do tear, vão-se muitos
milhares de anos.
Na Antiguidade, teremos o surgimento de grandes civilizações, que se
caracterizavam principalmente pela religiosidade, a distinção social vai
ficar muito acentuada neste período, pois quanto mais tecido maior o
poder. Neste período os ornamentos e as jóias vão começar a ganhar
destaque.
Nem sempre os homens usavam calças e as mulheres calças, isso é coisa
moderna. Algumas vezes já foi o contrário, pois de um quadrado de pano,
eram feitos saias, saiotes, túnicas que eram amarradas, costuradas ou
drapeadas, que em alguns momentos nos remetem à arquitetura lembrando as
colunas dos templos.
E a roupa escurece, ganha tons sóbrios, a arte também. A
religiosidade aflora. A arte era inspirada pela fé e a roupa segue pelo
mesmo caminho. A silhueta não era o mais importante, e sim a quantidade
de tecido que a cobria.
A intenção era tocar a Deus, chegar mais perto do céu, e assim a
silhueta foi se alongando, lembrando as torres das catedrais. Os vitrais
góticos vão influenciar em cores a indumentária, mas sempre com ares
sombrios.
Este período marca uma descoberta que vai acompanhar o homem até nossos
dias e vai exercer um papel fundamental na sua vaidade: o espelho.
Narciso mandou lembranças!
No
renascer do homem, nasce a moda
Renasce o homem, surge a burguesia, o brocado, o veludo, e com eles o
alfaiate. Os tempos eram outros, e a roupa mudou. A busca do ideal de
perfeição, representada nas artes, também se faz presente nas roupas.
O homem voltou a olhar para si.
O mundo começou a se movimentar, e o homem vai começar a movimentar
também a sua maneira de vestir, e essas mudanças se tornarão cada vez
mais frequentes.
A ciência e a razão são mais fortes que a emoção, e com isso surgem
as golas, que vão se tornar cada vez maiores, para valorizar a mente, em
sobreposição ao corpo, e aos mais pobres também.
Em contraposição a este ideal, vemos surgir mais tarde, um novo
movimento que mostra certa tendência ao bizarro, ao assimétrico, ao
extravagante, ao apelo emocional. O Rei francês Luiz XIV vai marcar este
período como o grande responsável pelas extravagâncias da época, que
serão assimiladas por toda Europa.
As roupas masculinas se sobrepõem às femininas, ganhando ares de
fantasia, com as silhuetas mais amplas.
Perucas, rendas, fitas, salto
alto, plumas... E as mulheres ficam para trás.
E as artes seguem este mesmo caminho barroco, caracterizado pela
monumentalidade das dimensões, opulência das formas e excesso de
ornamentação.
O homem, aos poucos, vai se tornando mais romântico, sem deixar de
lado os exageros. Tudo é mais leve, foi um período de liberdade de
movimentos, da sensibilidade e do espírito.
As pessoas pareciam bonecos de porcelana, com perucas e cabelos
empoados, lembrando verdadeiros bibelôs.
Os homens vão ficando mais esbeltos no vestir deixando de lado a
exuberância e entregaram-na as mulheres, que trouxeram para si o direito
as transformações, com anáguas imensas e cinturas finíssimas.
O homem do rococó é um cortesão, amante da boa vida e da natureza.
Com o período neo clássico, vão surgir os primeiros figurinos de
moda, e a influência grega vai determinar não somente a arte como a
moda. A silhueta se afina e se alonga, desaparecem as caudas, lembrando
novamente colunas, e o homem se simplifica cada vez mais.
Um novo tempo
Vira o século, novos rumos, novos ares, novas artes.
Uma arte nova vai dar à moda, uma nova linguagem. A mulher fica mais
sinuosa, as linhas são mais leves, chapéus, laços e flores. O mundo fica
mais rápido e isto vai influenciar o vestir. As mudanças são mais
rápidas, assim como os movimentos dos artistas. Começam a surgir os
primeiros estilistas e cada dia surgem mais e melhores.
O mundo avança, novos movimentos vêm em contraponto a esta nova arte,
mais moderna, mais geométrica.
A moda já tomou conta do mundo todo, ele se torna cada vez menor e
mais rápido. E ela vai se tornando cada vez mais efêmera.
A cada dia, novos traços, novos modelos, novas coleções e o homem
quer sempre mais, pois moda é tudo, menos tédio.
O que ficará de herança para a história neste século? É difícil
saber, mas temos certeza que alguns momentos se eternizarão: a invenção
da mini-saia, do jeans e da camiseta. Isto ficará para a história,
juntamente com um personagem desse tempo jamais esquecido: Mademoiselle
Coco Chanel. Ela deixou de criar moda para criar estilo.
Antropofagia
E o Brasil?
Como num movimento antropofágico, nós absorvemos todas essas
influências e hoje fazemos uma moda com a cara do Brasil, atraindo os
olhares do mundo para nossa arte. Arte sim, pois fazer moda é fazer
arte, é contar História, observando e utilizando as formas que também
estão na arquitetura, na escultura, na pintura, na música, na literatura
e, sobretudo, no véu cultural que já cobriu ou irá cobrir nossa
sociedade.
"Moda é oferta. Estilo é escolha. Faça as suas".
Gloria Kalil
Desde muito tempo, quando o homem cobriu seu corpo pela primeira vez,
seja por necessidade de proteção, magia ou poder, ele descobriu um
sentimento que, a partir de então, iria definir toda sua conduta: a
vaidade.
E é este sentimento que estará presente em todo o processo histórico
da evolução da humanidade. Seja na pré-história, no surgimento das
grandes civilizações, nas idades das trevas e da luz, no período moderno
ou contemporâneo, veremos o homem sempre em busca do "belo", espelho
fiel das mudanças sociais e culturais, e da multiplicidade de formas nas
quais se exprime a criatividade humana.
Paulo Menezes
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