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Baterilha e Ciça: ousadia e desafio pessoal

Por Thalita Santos

 

Quem acompanha o trabalho do Mestre Ciça sabe que a ousadia e a vontade de apresentar um diferencial na avenida fazem parte do seu estilo, porém, com o julgamento cada vez mais rigoroso, nem tudo é possível, e ele está cada vez mais cauteloso. O atual comandante da Baterilha nos contou um pouco mais sobre isso.

Ciça, mestre de bateria da União da Ilha (Foto: Bia Guedes / Agência O Globo)

“De 2010 pra cá eu dei uma mudada. A cobrança dos jurados é outra. Eles dão poucas notas 10 para as baterias. O julgamento tá mais detalhado. Não adianta trazer muita ousadia porque não tá valendo a pena. Mas depende muito da escola, se comprarem o barulho, nunca vou deixar de ousar. Eu tenho muitas ideias, mas algumas não posso colocar em prática hoje.”

Na União da Ilha, Ciça conta que a ousadia é diferente. Não faz o que fazia antigamente, mas não deixa de ousar. Planeja tudo dentro do estilo da escola, que gosta muito das paradinhas.

No seu primeiro ano na escola, Ciça foi pra avenida com uma parte do naipe de caixas fazendo a batida reta embaixo e a outra parte fazendo a batida em cima. Para o segundo ano, a ousadia é praticamente pessoal, pois vai abrir mão de suas características tradicionais em prol do resgate das características da escola.

“A Ilha sempre teve uma grande bateria no seu passado. Os antigos sabem disso, quem conhece carnaval também. Sempre foi uma bateria respeitada. No ano passado, eu já tinha essa intenção, mas era o primeiro ano, foi tudo muito rápido. Agora, com mais tempo, conhecendo melhor os componentes, resolvi fazer esse resgate. Foi complicado pra mim. Eu abri mão das minhas características para beneficiar os componentes da bateria. Não sei se vou ficar na história mas eu sou o cara que está resgatando a bateria da ilha que se perdeu. Foi mais um desafio na minha vida. Os ritmistas estão muito felizes e é isso que vale. A bateria tá feliz!”, completa.

Além do resgate, Ciça teve mais uma ideia. Na Ilha, decidiu abandonar as caixas de 12 polegadas, com aquela afinação mais aguda que sempre fez parte do seu estilo. Resolveu colocar todas as caixas maiores, de 14 polegadas, que tem a afinação mais grave.

“A escola topou a ideia. Comprou caixas novas. Já estamos há 7 meses trabalhando em cima dessa batida. Estou gostando do resultado. Vai ser o grande diferencial da bateria da Ilha esse ano. Acho que os jurados vão olhar com bons olhos, pois alguns querem que as baterias mantenham suas características, sua tradição.”

Ciça virá com 100 ritmistas no naipe de caixas. Não foi fácil encontrar muitos ritmistas que soubessem fazer a batida embaixo, pois dos antigos, alguns voltaram, mas muitos não estão mais na bateria. Estão fazendo um trabalho separado com o naipe, ensaiando 3 vezes por semana, sendo dois apenas com as caixas. O trabalho feito na oficina de percussão da Ilha também está sendo fundamental para a formação de novos ritmistas, que já estão aprendendo as características mais tradicionais da bateria.

“Se não fosse a escolinha, eu estava morto. É essencial e é uma obrigação das escolas. Tem que ter. Na Ilha a escolinha é muito organizada. Nesses 2 anos, chegamos a ter 250 pessoas querendo aprender a tocar. Ano passado aproveitei uns 50 ritmistas.”

Ciça revela que não vai resgatar apenas a batida de caixa, mas também o estilo de paradinha da Ilha, aquelas tradicionais perguntas e respostas dos repiques com o restante da bateria, uma característica antiga da escola.

“Eu tenho muitos repiques na bateria. Se bobear, todos eles fazem bossa. Gostam muito! É uma característica deles. Vou vir com 35 no naipe.”

Sobre a afinação, ele vai mudar também o seu estilo. Ele, que gostava de uma afinação mais baixa, hoje vai vir com as marcações mais agudas, já que as caixas de 14 polegadas são mais graves.

Mesmo com todo a mudança, Ciça mantém um pouco das suas características. Segundo ele, vai vir com o andamento um pouco mais na frente do que a Baterilha está acostumada, que era uma média de 144 BPM, porém, diferente do que muitos pensam, o mestre não é mais adepto ao andamento que era marca das suas baterias de anos atrás, muitas com mais de 150 BPM. Ele acredita que hoje em dia as baterias deveriam vir na média de 146 BPM, no máximo 148. Mais do que isso já não fica bom.

Sobre sua equipe, o mestre mantém seu estilo. No trabalho durante o ano, cada naipe tem seu diretor responsável.

“Eu divido as tarefas. É muita coisa na cabeça. O trabalho tem que ser assim.”

Ciça também se preocupou com a fantasia da bateria. Não é apenas o volume atrapalhando a visibilidade, mas os matérias usados, a quantidade de tecidos na roupa que abafam o som e diminuem o volume no conjunto, principalmente com as caixas embaixo. Segundo o mestre, na Ilha não terá esse tipo de problema para 2016.

“Quem não tocar com essa fantasia não toca em lugar nenhum. A roupa da bateria da Ilha não atrapalha em nada. Risco zero. Não tem como o ritmista não tocar. A roupa é espetacular. Uma ideia fantástica que os carnavalescos tiveram e eu aprovei na hora”.

Sobre o trabalho com o samba escolhido, Ciça diz que vai vir com algumas bossas e uma coreografia. Conta que o trabalho tá indo bem, mas ainda está acertando alguns detalhes.

“Estamos aparando umas arestas. Acertando algumas coisas com o Ito, que é um cara maravilhoso. A gente conversa muito pra ver o que é melhor para o samba. Estamos com 5 bossas. Na realidade o grande teste é no ensaio técnico. Vamos ver como vai ficar”, resume o veterano mestre de bateria.

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